Vida Simples: Rótulos do envelhecer

(Foto: unsplash) Enquanto envelhecer ainda for tratado como algo que precisa ser disfarçado, até as ideias mais modernas sobre o tema podem acabar repetindo o mesmo preconceito com outro nome

Envelhecer nunca foi um desvio do caminho. É o destino comum de quem permanece vivo. Ainda assim, há um desconforto crescente em parecer velho mesmo estando velho. Vivemos mais, prolongamos a vida com ciência, tecnologia e algum sucesso coletivo, mas seguimos recusando a imagem que o tempo produz. O corpo muda, o ritmo muda, a presença no mundo muda e, ainda assim, há um esforço quase silencioso para negar essa transformação. Não se trata apenas de vaidade, mas de uma recusa cultural mais profunda: a dificuldade de sustentar a velhice como parte legítima da vida.

É nesse cenário que surge o NOLT (em inglês, New Older Living Trend), um movimento que propõe um novo modo de envelhecer, mais ativo, produtivo, conectado, visível. Há potência nessa proposta. Ela confronta o etarismo, rompe com a ideia de que envelhecer é sinônimo de desaparecer, reivindica autonomia, aprendizado contínuo, desejo de participar do mundo. Há, sem dúvida, algo de necessário nessa ruptura com a aposentadoria como sinônimo de fim. Mas é preciso cuidado com aquilo que, ao tentar libertar, pode aprisionar de outra forma.

Quando envelhecer bem passa a significar permanecer jovem por mais tempo, deslocamos o problema. Apenas trocamos o silêncio pela exigência. Se o idoso era empurrado para a invisibilidade, agora corre o risco de ser cobrado por uma performance de vitalidade que nem todos podem sustentar. O corpo envelhece em ritmos diferentes, as condições sociais são profundamente desiguais, e a liberdade de escolher um estilo de vida ativo não está distribuída de forma justa.

A maioria das pessoas idosas no Brasil não está inaugurando uma segunda carreira, viajando ou reinventando projetos. Está sendo cuidada porque perdeu autonomia ou está cuidando de alguém, muitas vezes sozinha, porque não há com quem dividir responsabilidades. Lida com doenças crônicas, limitações funcionais, sobrecarga emocional e escassez de recursos. Essa velhice não cabe na estética otimista. E, por isso, corre o risco de ser apagada por discursos que, embora bem-intencionados, não alcançam a realidade.

Criar novos rótulos para envelhecer pode parecer inovação, mas também pode ser uma forma sofisticada de evitar o encontro com aquilo que nos desconcerta. O problema nunca foi a palavra “velho”, mas o valor que atribuímos a ela. Enquanto ser velho continuar sendo visto como algo a ser disfarçado, corrigido ou superado, qualquer movimento sobre um “novo envelhecer” corre o risco de apenas reorganizar o mesmo preconceito.

ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.

Fonte: Vida Simples

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