Vida Simples: Não quero dar trabalho

(Foto: Freepik) Dor, depressão e desesperança podem aumentar o desejo de antecipar a morte. Mas com cuidados paliativos adequados, esse cenário pode mudar

Na natureza, a necessidade de adaptação e sobrevivência está acima de qualquer comportamento compassivo. Por esses motivos, os animais podem abandonar, expulsar ou matar membros da mesma espécie, mas não por um juízo sobre isso ser bom ou ruim. Também não há reflexão sobre “ser um fardo”. Há instinto, escassez, sobrevivência. A biologia responde à preservação do grupo, não a dilemas morais. Entre humanos, a pergunta é outra. Ou pelo menos deveria ser.

Quando alguém diz: “Quero morrer para não dar trabalho”, não está fazendo um cálculo evolutivo. Está expressando dor. Dor de depender. Dor de perceber-se como motivo do cansaço nos olhos de quem ama. Esse sentimento é real. Em países onde a morte assistida é legal, relatórios oficiais mostram que a percepção de ser um fardo aparece com frequência entre os motivos declarados pelos pacientes. Ao mesmo tempo, pesquisas em cuidados paliativos indicam que depressão, desesperança e sintomas mal controlados aumentam o desejo de antecipar a morte, ao passo que intervenções adequadas podem reduzi-lo.

Mas quem sabe que o modo de cuidar é capaz de transformar o desejo de morte em alegria de ainda usufruir da vida disponível? E não falo de familiares especialistas; falo de profissionais pouco treinados, que colocam a culpa da dor no contexto do paciente e não na sua própria conta inacabada de conhecimento técnico e humano para fazer da morte um dia que vale a pena viver, apesar da dor de saber-se finito, frágil, humano.

Do outro lado, a sobrecarga familiar também é concreta. Cuidar consome energia física, emocional e financeira. Estudos mostram índices elevados de ansiedade e depressão entre cuidadores de pessoas com doenças crônicas e demência. Não se trata de falta de amor. Trata-se de limite humano. Quando o desejo de morrer encontra o esgotamento de quem cuida, forma-se um campo delicado – a vulnerabilidade compartilhada. E há muita desumanidade e ausência de disponibilidade para apoiar e auxiliar os familiares.

Se a vida passa a ser medida pelo quanto pesa, a dependência se torna critério de valor. E todos nós, em algum momento, dependeremos de alguém. A fragilidade é destino comum. Por isso, é preciso ampliar o cuidado. Porque, diferente da natureza, nós podemos escolher sustentar os frágeis – inclusive quando somos nós.

ANA CLAUDIA QUINTANA ARANTES é médica formada pela USP, especialista em Geriatria e Gerontologia, Cuidados Paliativos e Psicologia do luto, além de escritora.

Fonte: Vida Simples

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